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Gandalf, o profeta.

O universo mitológico de J. R. R. Tolkien está repleto de personagens singulares, com características curiosas, e importância particular, independente de sua interferência nos cursos dos contos. Um personagem que atrai a atenção da maioria dos leitores de O Senhor dos Anéis e dos espectadores da trilogia de filmes com o mesmo título, é o mago Gandalf.

A maioria daqueles que de alguma forma tiveram acesso à mitologia de Tolkien, conhece Gandalf como um mago de capa cinzenta que, com um alívio cômico, está a par de tudo o que acontece na Terra Média e ajuda Bilbo e Frodo em suas missões. Porém, se pararmos para observar mais de perto o personagem e estudar sua origem, vemos que ele é muito mais que isso.

Quem é Gandalf?

Olórin, Mithrandir, Tharkûn, Incánus, O Cinzento, O Branco. Todos estes são nomes de Gandalf, ou pelo menos como ele é conhecido por determinados povos e em determinadas épocas. Entretanto seu primeiro nome é Olórin, nome que foi lhe dado pelo próprio  Eru, o grande, ao criá-lo. Ele pertence à classe dos Ainur, que são divindades criadas por Eru Ilúvatar antes da criação de tudo. Seu papel inicial era aconselhar os elfos em Valinor (um espécie de paraíso), caminhando no meio deles sem ser percebido, não tendo necessariamente uma forma física, mas sendo um ser essencialmente espiritual. Ele era considerado o mais elevado entre os Ainur e por isso, seus conselhos eram sempre acolhidos.

Em determinado momento da história de Arda (terra), mais especificamente no início da Terceira Era, Olórin foi enviado junto com mais quatro Ainur para a Terra Média, com a missão de protege-la da ameaça de Sauron. Com isso eles assumiram definitivamente formas físicas e mudaram de nome. Olórin passou a ser chamado de Gandalf, ou por outros nomes já citados a cima de acordo com o povo. Os elfos especificamente o chamam de Mithrandir.

Os Ainur que foram enviados à Terra Média são chamados de Istari, e são mais poderosos do que imaginamos e até mesmo do que se manifestaram em O Hobbit e O Senhor dos Anéis, pois gozam de privilégios junto às divindades da mitologia de Tolkien. O desconhecimento de seus poderes se dá pelo fato de que suas ações, na maioria das vezes, não sejam percebidas por homens, elfos, anões e hobbits, pois agem escondidos e em assuntos desconhecidos pela maioria. Sendo assim poucos sabem quem são de fato os Istari, por isso os chamam sempre de Magos.

A mudança de nome de cada um dos Istari implica na mudança de seu modus operandi diante do universo criado pelo autor. Essa mudança implica que os Maiar (divindades) se deslocaram da morada das divindades (num tempo primordial) para a morada das criaturas (num tempo histórico) e assumiram formas corporais tão frágeis quanto as formas que envolvem tais criaturas.
– Stéfano Stainle (2016)

O papel de Gandalf

Gandalf é descrito em O Hobbit e em O Senhor dos Anéis, como um velho barbudo, de sobrancelhas volumosas e que veste uma capa cinza e um chapéu azul pontudo. E seus poderes tantas vezes se confundem com fogos de artifícios e mágicas simples. Para muitos personagens ele era simplesmente um mago de araque, ou um conspirador, um mensageiro de más notícias.

Porém, como citado acima a missão dos Istari era combater a ameaça de Sauron na Terra Média. Mas na obra de J.R.R. Tolkien, Gandalf desempenha um papel muito maior, seja em relação ao trabalho literal, à filosofia ou até mesmo à em termos de religiosidade, tanto em relação aos outros de sua classe ou em relação ao seu papel inicial. O mestre em Estudos Literários Stéfano Stainle, defendeu sua tese de mestrado com o título Gandalf: a linha na agulha de Tolkien. Ele explica que este personagem teve um papel fundamenta no enredo da obra e, que ele é o que liga os pontos entre os outros personagens e entre os acontecimento da trama de O Senhor dos Anéis.

Stéfano defende que Gandalf age sempre com Sabedoria, Paciência e Compaixão, e que inspira tais virtudes também em outros personagens. E podemos afirmar que é com base nestas três qualidades que ele desempenha seu papel em toda a saga do anel, desde O Hobbit até o fim de O Senhor dos Anéis. Agindo sempre como intermediador entre homens, elfos, anões e hobbits, indicando os caminhos e aconselhando os líderes.

As três características citadas acima, são também comuns aos profetas do antigo testamento bíblico, que seguindo a missão que Deus os confiara, foram para o povo fontes de sabedoria, paciência e compaixão, aconselhando os reis e admoestando o povo. Aqui quero lhe convidar, caro leitor, a uma analogia a cerca de Gandalf em relação aos profetas da Antiga Aliança e a Cristo, lembrando é claro que, nenhuma pessoa, real ou fictícia, pode ser comparada ao Nosso Senhor Jesus Cristo que é santo e incorruptível. Porém, o convite que vos faço tem como objetivo identificar características da função profética de Cristo na obra de J. R. R. Tolkien, assim como já fizemos com as funções régia e sacerdotal.

Um profeta

É aquele que anuncia os desígnos de Deus, que convida o povo à conversão e que vive em intimidade com o Altíssimo. Que fala com o Senhor e que escuta Sua voz. Os profetas do antigo testamento também desempenham papéis políticos, mesmo que de forma indireta. Como por exemplo o profeta Samuel, que ungiu a Davi como rei por vontade de Deus.

Para cada tempo Deus levanta um profeta com características diferentes, de acordo com aquilo que o seu povo vive, e nisso percebemos o cuidado dele para com seus eleitos. Pois Ele envia seus servos para barrar o crescimento do mal, seja por conselhos, alertas, exortações, etc. O profeta é a voz de Deus e é também a “linha na agulha”, usando de sabedoria, paciência e compaixão.

Um profeta é testemunha das mudanças, é sensível aos sinais do tempo, e está atento ao que acontece à sua volta. Jesus, no sermão da montanha, nos revelou as bem-aventuranças, que trazem em seu conteúdo uma lista de características de uma pessoa sábia. Aí também Jesus expressava sua sabedoria, pois suas palavras eram certeiras aos corações dos homens, de forma que ao final de seu discurso todos ficaram impressionados com seus ensinamentos (Cf. Mt 7,18). Pois Ele ensinava não como alguém que havia apenas estudado ou que tinha conhecimento da lei, mas como um sábio, alguém que além do conhecimento tinha o senso da verdade e a disposição a fazer a vontade do Pai.

Sábio, Paciente e Compassivo

As palavras de um profeta agradam e desagradam, seus conselhos nem sempre são aceitos, e suas opiniões as vezes não são bem-vindas. Por isso é necessário que ele seja paciente, que espere os tempos com atenção e cuidado. Gandalf não era ouvido pelo rei Théoden de Rohan por conspiração do Língua de Cobra, que estava a serviço de Saruman que por sua vez estava a serviço de Sauron. Aos conselhos de Cristo muitas vezes somos surdos e cegos e preferimos não ouvir. Nos escondemos dos ensinamentos e das exortações tal como fez Théoden, mas a luz de Cristo é mais forte que qualquer treva, não há escuridão na qual ela não penetre.

Como podemos ler no capítulo O Rei do Palácio Dourado do livro O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, o rei de Rohan estava possuído por um espírito de cansaço e velhice, o seu assistente Gríma, chamado de Língua de Cobra, colocava em seus pensamentos palavras de tristeza e desanimo. Gandalf sabia quão importante seria o rei Théoden para o livramento da Terra Média da ameaça de Sauron, sabia porquê o conhecia, conhecia seu povo e sua força. O rei se recusava a ouvir Gandalf, ou a qualquer outro que lhe dessem conselhos contrários ao de Línga de Cobra, e vivia com uma escuridão sempre a vista e triste como se hoje fosse seu último dia. E quantas vezes nós nos encontramos assim, perdidos na vida, guiados por conselhos malignos daqueles que querem ver a nossa derrota. Assim nos tornamos surdos à vontade de Deus e cegos às Suas revelações.

Porém à voz de Cristo todos os ouvidos se abrem, e à Sua luz tudo o que está escondido é revelado e o mal foge. Assim como aconteceu quando Gandalf ergueu seu cajado diante do rei Théoden, de forma que um clarão surgiu dele como um raio vindo do céu, e tudo se tornou claro. O rei então voltou a si e o que estava escondido foi revelado. Gandalf sabia que tipo de mal estava sobre o rei, assim como Jesus sabia que tipo de mal nos atentava e nos atentaria, e por isso, no sermão da montanha, nos deu a receita para vencer o mal.

A sabedoria transmite a verdade, que por sua vez é libertadora. Ninguém pode resistir a isso. A verdade chegou ao conhecimento de Théoden, que chegue também ao nosso, e que assim como ele nós possamos nos levantar da falsa ideia de escuridão que há em nossa vida e vir para a luz de Cristo, guiados por sua sabedoria e abençoados por ela. A paciência nos ajuda a vencer os inimigos, e nos ensina que a nossa vontade não é maior que a de Deus, Gandalf foi paciente com o rei, pois ao invés de repreende-lo por sua inércia, quis na verdade lhe ajudar a sair dela.

E quanta paciência tem Cristo para conosco, Ele que é manso e humilde. Ele espera por nós o tempo que for necessário, e mesmo com nossas ofensas, continua a nos ajudar. Ele vem a nós e nos traz a consolação, consolação que o rei Théoden sentiu ao ver que o dia não estava tão escuro como ele pensava que estava.

“Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha.” (Mt 5,1)

Foi por compaixão que Cristo falou àquele povo, Ele sabia que aquelas pessoas precisavam dos ensinamentos, que eles estavam ali para ouvi-lo falar, e que Sua fala reconfortava seus corações. Ele poderia ser indiferente àquelas pessoas, ao seu sofrimento e cansaço, mas quis consola-los. Pois um profeta é a manifestação de compaixão de Deus para com seu povo. Um profeta é compassivo com os que sofrem, como Samuel foi com o povo de Israel que precisava de um rei que o governasse.

A compaixão também moveu Gandalf ao ver que Rohan estava praticamente sem rei, e que sem a ajuda deles seria praticamente impossível proteger Gondor ou atacar os portões de Mordor. O mago poderia ter sido totalmente indiferente a todos os acontecimentos daquela época: ao crescimento da força de Sauron, aos perigos de destruição dos reinos e escravização das pessoas. Mas ele tomou a atitude de buscar soluções, assim chegou a Rohan e assim ajudou homens e elfos na batalha contra o Senhor do Escuro.

Conclusão

A função profética de Cristo se manifesta na obra de Tolkien não somente no episódio de Théoden, como relatado acima, mas em muitos outros momentos, e em outros personagens. Porém Gandalf sem dúvidas representa melhor essa função por aquilo que ele representa na trama, pelas falas e pelos conselhos.

Que cada um de nós possamos hoje assumir também essa função à qual somos chamados e ser profetas do nosso tempo, anunciadores da vontade de Deus com sabedoria, paciência e compaixão. Pois essa é uma urgência do nosso mundo, uma necessidade eminente, assim como era a necessidade de combater o mal de Sauron e a necessidade de vencer o maligno como fez Cristo. Não sejamos indiferentes a tais necessidades, roguemos que a Virgem Santíssima possa nos ajudar nessa caminhada, e que o Espírito Santo esteja conosco.


STAINLE, STÉFANO. Gandalf: a linha na agulha de Tolkien. 2016. Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/141473/stainle_e_me_arafcl.pdf?sequence=3>

TOLKIEN, JOHN R.R. O Senhor dos Anéis: as duas torres; Tradução: Lenita Maria Rímole Esteves, Almiro Pisetta; 2ª ed; São Paulo; Martins Fontes; 2000.

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