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O Senhor dos Anéis e O Cristo Sacerdote

O Catecismo da Igreja Católica no seu parágrafo 783 nos ensina o seguinte:

“Jesus Cristo é Aquele que o Pai ungiu com o Espírito Santo e constituiu “sacerdote, profeta e rei”. Todo o povo de Deus participa destas três funções de Cristo, com as responsabilidades de missão e de serviço que delas resultam.” (CIC§ 783)

Portanto Cristo é Rei, Sacerdote e Profeta, como nos confirma a carta aos Hebreus no capítulo primeiro, versículos de 1 a 4. E isso se expressa na vida d’Ele de forma concreta em vários momentos do Evangelho, nas cartas de seus apóstolos ou nas profecias do Antigo Testamento sobre a Sua vinda.

No texto Jesus Cristo e Aragorn – O sem-coroa há de reinar, podemos entender como é representado o Cristo Rei na obra de J.R.R. Tolkien. Entendendo é claro que, nenhuma pessoa ou personagem fictício, que são corruptíveis, podem ser comparadas a Jesus que é incorruptível. Mas lembrando também que Tolkien era um católico devoto e que sua obra está repleta de referências ao cristianismo e às sagradas escrituras. Neste texto trataremos de outra função de Cristo: a sacerdotal, representada por Tolkien em sua obra.

O Sacerdote

A vida sacerdotal requer renúncia e comprometimento com a missão, pois o homem que assume tal compromisso deve saber que, do momento em que se consagra em diante, não deve mais servir a si mesmo, mas a Deus e aos irmãos. Na Antiga Aliança o sacerdote tinha o papel de apresentar a Deus as súplicas e os sacrifícios do povo, assim como hoje os sacerdotes católicos oferecem a Santa Missa todos os dias. Cristo é o sacrifício, Ele se oferece como vítima pelos pecados da humanidade, afim de barrar o crescimento do mal, dar a vida eterna aos que creem e nos libertar de todo o pecado. Não há ato de bravura, de quem quer que seja, que se compare a esta tamanha entrega, que é o acontecimento mais importante do cristianismo e da história do povo de Deus. Mas podemos observar os elementos básicos da vida, morte e ressurreição de Cristo para que possamos entender a representação do Cristo Sacerdote expressada por Tolkien.

A renúncia

Frodo bolseiro vivia em bolsão, na Vila dos Hobbits, lugar onde as guerras e a maldade do mundo eram só rumores ou lendas de ninar. Levava uma vida tranquila e sem muitas preocupações junto com seu tio Bilbo, que contava histórias de aventuras com elfos, homens, anões e dragões. Tinha amigos, roupas boas, comida à vontade, cama quente, chás da tarde e toda a comodidade que uma toca de hobbit pode proporcionar. Ele era feliz com isso. Mas um dia, alertado sobre o mal que havia no antigo anel de seu tio, decidiu partir, deixando para trás todo o conforto de sua casa. Foi uma escolha difícil, mas necessária, pois além das fronteiras do condado, haviam pessoas que eram oprimidas e ameaçadas por um mal que crescia a cada dia. E esse mal procurava algo que o jovem hobbit carregava, o que poderia fazer com que tal sombra viesse também sobre a Vila dos Hobbits.

Em Filipenses capítulo 2, versículos 6 e 7 lemos que Jesus não se prevaleceu de sua condição divina, mas se assemelhou aos homens. O condado, onde Frodo vivia, não era o paraíso que acreditamos existir na eternidade, mas era um lugar de gozo e felicidade, onde a maldade ainda não tinha chegado e que era muito amado pelos seus habitantes. Frodo se desfez de suas condições para se tornar um peregrino, e também Cristo se fez peregrino nesse mundo, deixando seu trono à direita do Pai por um tempo, pois essa era a sua missão.

O plano do hobbit era ir até Valfenda, onde um conselho formado por elfos, homens e anões decidiria o futuro do anel. Mas era uma jornada perigosa e amedrontadora, pois além de tudo, eles estavam sendo perseguidos. Se viam sempre entre duas escolhas: ficar em suas camas quentinhas ou viajar na chuva e sol, enfrentando toda sorte de intempéries, pois renunciar é escolher. Frodo escolheu correr os riscos pelo bem da Terra Média e Cristo escolheu se entregar por nós para nos livrar do pecado e do mal.

A entrega

Em Valfenda o conselho decide: “O anel vai para o sul!”, onde deveria ser destruído na Montanha da Perdição. Seria necessário que alguém levasse o anel, alguém que tivesse o coração puro e sem ganancias, alguém que estivesse disposto a se entregar e enfrentar todo perigo possível.

Enviar Frodo para tal missão já era intenção do mago Gandalf, assim como enviar missionários e padres em missão é a intenção de Deus, e assim como enviar Cristo para morrer por nós era também Sua intenção. Mas é necessário que Frodo tome a iniciativa e faça a escolha. Pois o mago não poderia escolher em seu lugar e o obrigá-lo a encarar tamanho desafio, da mesma forma Deus chama os jovens ao sacerdócio, mas os deixa livres para escolher. Cristo também teve a liberdade de escolher, mas por ser livre escolheu ser obediente e cumprir a vontade do pai.

Ambos, Frodo e Cristo, tinham que se entregar totalmente às suas missões, e ter foco naquilo que era realmente necessário em cada uma delas. Para o hobbit lembrar de sua cama macia no condado não diminuiu o incomodo de dormir no chão várias vezes, mas o fazia lembra de que havia algo pelo que lutar, alguma coisa que valesse a sua entrega. Mas ao mesmo tempo o colocava em uma saia justa, pois ele poderia reivindicar o poder do Um Anel e dar a si mesmo um leito confortável para dormir. Isso mostra o quanto sua entrega era repleta de tentações semelhantes às que Jesus sofreu no deserto durante os quarenta dias, onde foi posto à prova por Satanás antes de iniciar Sua vida pública.

A carta aos Hebreus diz que o sacerdote deve oferecer sacrifícios pelos seus pecados e pelos do povo. Cristo não tinha pecado, mas se oferecia pelos do povo, subindo ao Calvário e sendo entregue a morte de cruz. Frodo também se entregava pelo povo da terra média, especialmente por aqueles que mais corriam riscos, os mais desprovidos de segurança armada para enfrentar os poderes do mau. Fez isso subindo a Montanha da Perdição, em direção daquilo que poderia ser a sua ruína. Como dito antes, esta entrega não pode se comparar à de Jesus, mas é uma referência baseada no Seu sacrifício.

A vitória

A vitória de Cristo foi na Cruz e Ressurreição, a de Frodo foi na destruição do Um Anel. Em ambas a ameaça que crescia foi vencida, e o bem triunfou sobre o mal como que numa Eucatástrofe, quando tudo parecia perdido, de repente tudo mudou de forma surpreendente, e trouxe para todos a alegria.

Nós cristãos somos chamados a nos assumir no sacerdócio de Jesus, sendo capazes de renunciar e nos entregar, para assim alcançarmos a vitória com ele. Tolkien, ciente da missão sacerdotal de Jesus, a representou de forma sublime em sua obra. Portanto tratamos já do Cristo Rei e Sacerdote, no próximo texto falaremos também da representação da função profética em O Senhor dos Anéis.

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